Lumusiando

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O mundo real não é um feed personalizado

LumusiandoImagem por: Lumusiando


Eu sou vegetariana e eu estou muito bem com isso: meus exames estão em dia e minha saúde está bem. Mas, ainda assim, as pessoas ficam bastante incomodadas quando eu digo que sou vegetariana. 

É estranho para mim como algumas pessoas parecem ficar até mesmo ofendidas quando menciono que não consumo carne. E não é como se eu chegasse impondo a minha escolha sobre as pessoas ou como se eu falasse de forma pomposa que desse a entender que eu me acho um ser superior por ser vegetariana. Eu simplesmente digo: "Eu sou vegetariana" e pronto: o circo está formado.

Diversos "eu nunca conseguiria", "isso é loucura, o ser humano precisa de carne" e afins surgem em segundos. Isso porque eu apenas comuniquei a forma como eu escolhi me alimentar. E, quando eu conto que já fazem onze anos de vegetarianismo, parece que as pessoas surtam de alguma forma.

Isso quando eu não cometo o erro de comentar que não tenho interesse em ser mãe. Nossa, aí as pessoas ficam MUITO ofendidas. 

E eu acho muito interessante como uma escolha totalmente pessoal, que interfere apenas em mim, pode incomodar tanto as pessoas. Não é como se eu estivesse cometendo um crime ou algo do tipo; eu só não como carne. 

Mas as pessoas ficam realmente ofendidas quando encontram alguém que fuja um pouco da forma como elas costumam levar suas vidas, mesmo que a intenção nunca tenha sido ofender ninguém. O diferente assusta, e acho que todo mundo já percebeu isso. Mas isso não significa que precisamos estar na defensiva o tempo inteiro, provando que nossas escolhas são as mais corretas e as melhores. 

Eu, honestamente, não sei se o fato de eu mencionar o meu não consumo de carne desenvolve um conflito interno em algumas pessoas, fazendo elas perceberem que: apesar de serem contra a crueldade animal, elas ainda têm hábitos que compactuam com isso. Mas a intenção realmente não é essa.

Nem toda escolha pessoal é um ataque às escolhas de outra pessoa. Tá tudo bem as pessoas terem vidas e filosofias de vida diferentes (se não for nada ilegal, claro). 

Quando eu digo a alguém que sou vegetariana, minha intenção é só comunicar ou justificar o motivo de eu estar recusando uma comida, não julgar seus princípios e tradições. Eu dizer que não quero ter filhos não significa que eu odeio crianças; significa que eu tenho autoconhecimento o suficiente para entender que não quero ser responsável nem gerar um outro ser humano. 

E está tudo bem.

Está tudo bem se você for um onívoro, se você quiser ter filhos, se você gosta de sorvete de chocolate e se você prefere tomar Coca-Cola. Essas escolhas são individuais suas e está tudo bem você escolher isso. 

Uma das coisas que as redes sociais intensificaram foi a chamada Síndrome do Protagonista. Conteúdos "personalizados" o tempo todo fizeram as pessoas começarem a achar que tudo precisa ter uma conexão com elas, mesmo que não precise. E, dessa forma, nos tornamos cada vez mais reativos quando algo parece ameaçar a nossa individualidade, mesmo que essa nem seja a situação. 

Vemos cada vez mais pessoas padronizadas e julgando qualquer diferença de si mesmas, como se o mundo devesse ser tão personalizado para si como o seu feed das redes sociais. Mas, aqui no mundo real, as pessoas são diferentes e nós temos que conviver com elas. Com suas diferentes filosofias, crenças, estilos e ritmos. 

Saber quando usar um poder é mais importante do que tê-lo, e eu digo isso me referindo ao fato de que não é porque temos o poder de fazer comentários que precisamos fazê-los. Há realmente a necessidade de deixar um comentário maldoso na foto de alguém simplesmente porque é a "sua opinião"? A sua opinião era realmente tão importante assim? Ou você só está expressando ela para se sentir incluído naquele post? 

Acho que, às vezes, o mais importante que podemos fazer é olhar uma postagem, ouvir uma frase, ler algo e nos perguntar: "Isso é mesmo para mim?", "Eu realmente preciso me posicionar sobre isso?", "Isso realmente se encaixa na minha vida?". Porque, ao querer que tudo esteja sempre de acordo com nossas escolhas atuais, nós não apenas limitamos o que podemos aprender e evoluir com os outros, como nos privamos de crescer e melhorar. 

Imagina se todo mundo sempre seguisse a mesma tendência, todos iguais, gostando das mesmas coisas e se, pior ainda, sempre ficássemos com os mesmos gostos e opiniões? Nossa autenticidade e individualidade sumindo para que ninguém nunca se sentisse incomodado

Parece loucura, não é mesmo?

E é, porque somos seres mutáveis, estamos em constante mudança. E essa é a beleza da vida: a possibilidade de poder mudar, melhorar e se transformar, ainda sendo quem você é. 

E se nós não entramos no mesmo rio duas vezes, por que você não pode encontrar novos rios, ensinamentos e filosofias para se molhar e desbravar? 

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